
Fibrilação Atrial no Idoso: Como Prevenir o AVC
O coração tem um ritmo. Na maior parte da vida, ele bate de forma regular, como um relógio. Com o passar dos anos, esse ritmo pode se desorganizar. A forma mais comum disso acontecer se chama fibrilação atrial. Ela é silenciosa em muitos casos, fica mais frequente depois dos 65 anos e aumenta bastante o risco de AVC (derrame). A boa notícia: existe prevenção eficaz, e ela começa por descobrir a arritmia a tempo.
O que é fibrilação atrial?
O coração tem quatro cavidades. As duas de cima se chamam átrios. Normalmente, um "marca-passo natural" manda um sinal elétrico ordenado, e o coração bate no compasso certo.
Na fibrilação atrial, os átrios recebem sinais elétricos desordenados. Em vez de contrair com força, eles tremem (fibrilam). O resultado é um batimento irregular: ora rápido, ora lento, sem padrão. É a arritmia sustentada mais comum na prática clínica. Ela pode vir em episódios que vão e voltam ou ficar o tempo todo. Nos dois casos, o risco de AVC existe e precisa ser avaliado.
Por que fica mais comum com a idade?
Com o envelhecimento, o tecido do coração fica um pouco mais rígido e acumula pequenas cicatrizes. Doenças mais frequentes na terceira idade, como pressão alta, diabetes, insuficiência cardíaca, apneia do sono e problemas nas válvulas, aumentam ainda mais a chance de a arritmia surgir. Por isso ela é rara em jovens e vai se tornando mais comum a cada década de vida. E, em quem já tem fibrilação atrial, a própria idade (a partir dos 65 anos) entra na conta como fator de risco para AVC.
Por que ela aumenta o risco de AVC?
Quando os átrios tremem em vez de contrair, o sangue fica parado em alguns cantinhos do coração. Sangue parado pode formar coágulos. Se um pedaço se solta, ele pode viajar até o cérebro, entupir uma artéria e causar um AVC.
O estudo de Framingham, um dos mais importantes da cardiologia, acompanhou milhares de pessoas por décadas e mostrou que a fibrilação atrial aumenta cerca de cinco vezes o risco de AVC, independentemente de outros fatores. O mesmo estudo revelou que a parcela dos AVCs causada por essa arritmia cresce muito com a idade: era pequena entre 50 e 59 anos e chegava perto de um em cada quatro casos entre 80 e 89 anos.
Além disso, o AVC ligado à fibrilação atrial costuma ser mais grave, porque os coágulos que vêm do coração tendem a ser maiores.
Quais são os sintomas?
Algumas pessoas sentem claramente. Os sinais mais comuns são:
- Palpitação: coração acelerado, "batendo fora de hora" ou "tropeçando".
- Cansaço fora do comum, mesmo em atividades simples.
- Falta de ar ao caminhar ou subir escadas.
- Tontura ou sensação de desmaio.
Mas há um detalhe importante: muitas pessoas não sentem nada. A arritmia pode estar lá há meses sem dar aviso, e não é raro que o primeiro sinal seja o próprio AVC. Por isso, não dá para esperar um sintoma para investigar, especialmente depois dos 65 anos.
Como se faz o diagnóstico?
- Sentir o pulso. No punho ou no pescoço, o pulso normal é regular. Na fibrilação atrial, ele fica desordenado, sem compasso. O próprio paciente ou um familiar pode fazer esse teste em casa.
- Eletrocardiograma (ECG). Exame rápido, sem dor, feito no consultório. Registra a atividade elétrica do coração e confirma a arritmia se ela estiver acontecendo naquele momento.
- Holter. Um pequeno aparelho que grava o ECG por 24 horas ou mais, durante a rotina normal. Serve para flagrar os episódios que vêm e vão.
Alguns relógios inteligentes também alertam sobre ritmo irregular. Eles não fecham o diagnóstico sozinhos, mas o aviso merece ser levado ao cardiologista. As diretrizes atuais recomendam a busca ativa dessa arritmia em pessoas mais velhas, justamente porque ela costuma ser silenciosa.
Como prevenir o AVC?
A principal forma de prevenção é a anticoagulação: remédios que deixam o sangue menos propenso a formar coágulos. Muita gente chama de "afinar o sangue".
A evidência é forte. Uma grande revisão de estudos, publicada no Annals of Internal Medicine, mostrou que o anticoagulante em dose ajustada reduz o risco de AVC em cerca de 64% em pessoas com fibrilação atrial, enquanto a aspirina reduz apenas cerca de 22%. Ou seja: aspirina não substitui o anticoagulante nesse caso.
A decisão de anticoagular é individual. O cardiologista pesa dois lados da balança: o risco de AVC (idade, pressão alta, diabetes, insuficiência cardíaca, AVC prévio, doenças vasculares) e o risco de sangramento (anemia, função dos rins e do fígado, outros remédios, histórico de quedas). Com isso, define se o tratamento é indicado, qual tipo e como acompanhar. Doses e escolha do medicamento são sempre definidas em consulta, nunca por conta própria.
Outras medidas ajudam: controlar a pressão, tratar a apneia do sono, reduzir o álcool, manter o peso saudável e cuidar do diabetes.
Mito: "idoso não pode tomar anticoagulante por causa da idade"
Essa ideia é comum, mas não é verdadeira. O medo vem do risco de sangramento, que existe e precisa ser respeitado. Mas a idade, sozinha, não é motivo para negar o tratamento. Pelo contrário: quanto mais velha a pessoa, maior o risco de AVC e, portanto, maior o benefício de prevenir.
Um estudo feito justamente com idosos, chamado BAFTA, acompanhou quase mil pessoas com fibrilação atrial e 75 anos ou mais (a média de idade era de 81 anos). Metade usou anticoagulante e metade usou aspirina. Quem usou anticoagulante teve menos da metade dos eventos graves (principalmente AVC fatal ou incapacitante), e a taxa de sangramentos importantes foi semelhante nos dois grupos. Ou seja, com indicação correta e acompanhamento, o anticoagulante pode ser seguro e eficaz mesmo depois dos 80 anos.
As diretrizes europeias de 2024 e as diretrizes brasileiras reforçam: o risco de sangramento não deve ser motivo para deixar de anticoagular. Ele deve servir para corrigir o que for corrigível, como pressão descontrolada, uso de anti-inflamatórios ou excesso de álcool, e para acompanhar o paciente mais de perto.
Isso não significa que todo idoso deve tomar anticoagulante. Significa que a decisão nasce da avaliação médica de cada pessoa, não da idade.
Sinais de AVC: procure o pronto-socorro na hora
Se você ou alguém perto de você tiver um destes sinais, ligue para o SAMU (192) imediatamente. No AVC, cada minuto conta.
- Um lado do rosto fica caído ou torto ao sorrir.
- Fraqueza ou dormência súbita em um braço ou perna, geralmente de um lado só.
- Dificuldade repentina para falar, fala enrolada ou dificuldade para entender.
- Perda súbita da visão em um ou nos dois olhos.
- Tontura forte, perda de equilíbrio ou confusão que surge de repente.
- Dor de cabeça muito intensa e súbita, diferente de qualquer outra.
Não espere passar nem vá dormir para "ver se melhora". Quanto mais cedo o atendimento, maior a chance de recuperação.
Quando procurar o cardiologista
- Se sente palpitação, cansaço, falta de ar ou tontura sem explicação.
- Se notou o pulso irregular, ou um aparelho apontou ritmo irregular.
- Se tem mais de 65 anos e faz tempo que não faz um eletrocardiograma.
- Se tem pressão alta, diabetes, insuficiência cardíaca ou apneia do sono.
- Se já tem fibrilação atrial e não faz acompanhamento regular.
- Se já usa anticoagulante e tem dúvidas, efeitos colaterais ou sangramentos.
Cuide do ritmo do seu coração
A fibrilação atrial é comum na terceira idade, muitas vezes silenciosa e responsável por AVCs que poderiam ser evitados. Sentir o pulso, fazer um eletrocardiograma e conversar com o cardiologista são passos simples que fazem grande diferença.
A Dra. Márcia Cristina é cardiologista em Belo Horizonte e atende adultos e idosos pelo convênio Medsenior. Se você ou um familiar se identificou com este texto, agende uma consulta de cardiologia e tire suas dúvidas com calma.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Toda decisão sobre exames e tratamento deve ser tomada com o seu médico.
Referências
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